domingo, 25 de abril de 2010
Nada
Lua andava com muito custo até que achou um lugar que servia chá mate gelado com limão. Tudo que ela precisava naquele momento.
Naquele mesmo momento encontrou outra coisa que precisava, e essa coisa era uma pessoa interessante. Esta coisa estava com uma xícara com chá de maçã e canela, sentada perto da entrada, onde se tinha uma iluminação peculiarmente especial, de forma que a luz solar se dividia em cores através de um vidro.
Ela escrevia algo, usava óculos escuros em formato de coração, tinha os lábios carnudos em bordeau e ouvia MP3. Lua se aproximou, fitou de perto e, sem dizer nada, sentou-se na mesma mesa. Ela continuou o que estava fazendo e sem se mover saudou Lua.
- Como estás, Lua?
- Sendo. E você?
- Muito bem, obrigada. O que te traz aqui, hein?
- Esse verão indigno - disse Lua, suspirando de raiva.
- Geralmente o que me traz aqui é nada. Nada. Em verdade e absolutamente, nada.
Ela acabou o que fazia, tirou os óculos e os fones e encarou Lua com seus olhos de gato.
- Não achei que você fosse vir até mim tão cedo.
- Assim como nada a traz aqui, nada me trouxe até você.
E Lua tirou os seus óculos escuros modelo wayfare e também a encarou com seus olhos de felino esperto.
- Lua, estás amadurecendo.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Ei!
Esqueça a cama;
Esqueça a TV;
Esqueça o terremoto;
Esqueça Travis no Taxi;
Esqueça Parnassus;
Esqueça Preciosa;
Esqueça os camundongos do teu quarto;
Esqueça o Nimesulida e o quelo;
Esqueça suas unhas roidas e seu esmalte descascado;
Esqueça o resto de pizza na cozinha;
Esqueça seus óculos escuros e a luz irritante do sol;
Esqueça seus vizinhos;
Esqueça a madrugada;
Acorde!
Chá forte.
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
O antebraço e a madona
Lá estava eu, completamente entediada.
Meu pai não parava de ver relógios e minha mãe... Bem, mamãe ainda estava indecisa com aqueles malditos óculos escuros.
Eu? Pra lá e pra cá. Ia à seção de camisetas masculinas, já que sempre encontro estampas de cerveja ou comics. Nada. Os designers filhos da puta não fizeram nada que se aproveitasse. Ia à seção de calças femininas. Porcarias. Não tinham aquelas calças skinny com estampas escrotas que tanto gosto. Só umas coisas pra meninas frescas, falsamente delicadas.
Voltei para ver se meus genitores resolveram algo... Porra nenhuma!
Já estava ficando puta e resolvi ir para a parte dos calçados - nada que eu pudesse comprar, mas ao menos tinham cadeiras!
Sentei confortavelmente e liguei meu mp3...não lembro se eram os Stray Cats ou os Beatles pulando e lambendo meus ouvidos dentro do celular...Ah, mamãe! Já decidiu? Não?! Como não?!?! O quê?!?! Precisa de mim pra quê?! Ah, papai tá me chamando, é... pra ajudar? Em quê? Decidir?! Mas será que vocês não são capazes de escolher uns míseros óculos sem a minha presença? Ah, tá... Eu sou o desempate. Tá bom. Faço qualquer coisa pra sair logo daqui! mexe a bunda que eu vou atrás...
Cheguei lá. Dei minha opinião. Eu sei que eu tenho razão... é só usar a lógica, mãe... analise o formato do seu rosto. Pronto? Falta pagar? Tá. Por favor, vai logo... Olha, vou me encostar aqui, viu...
Encostei-me no balcão de pagamento, que também o mostruário de relógios... Fui me encostando naquele móvel liso... Encostando, descendo... Acocorei - tédio. Sentei - tééédiooo... podia me cobrir com a barra do vestido de minha mãe. O chão estava confortável. Olhava pr'um lado e pro outro. Nada. Olhava em frente, pro outro balcão. Branco, branco, branco... Vap! Em poucos segundos algo, súbitamente, apareceu diante de minha face melancólica.
Um antebraço. Não qualquer antebraço! Um lindo antebraço! Rechonchudo, delicado... parecia de mármore tamanha a perfeição! Sim! Proporções perfeitas! Passaria os dias, a eternidade a estudar aquela forma. Pegá-los-ia para mim! A dona daqueles antebraço era uma madona de traços regulares, madura... ficaria melhor como uma Vênus de Milo... sem antebraços - que deveriam ser usados para a constante admiração.
A madona foi embora com a mesma velocidade que apareceu, levando consigo os antebraços. Eu jamais veria-os novamente.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Narguilè
Sorteou um prédio empresarial qualquer e subiu até o último andar - só queria ter um panorama do seu Limbo. Ah, vista infernal esplêndida! As construções aos pedaços em vermelho-veneza, gris-de-payne e verde-musgo lutavam contra os canais pretos e o céu melancólico. Queria brincar de lego com aquele lugar, construindo e desconstruindo cada pilastra, cada muro, cada tijolo velho.
O céu. O céu escondia Deus em sua vergonha e ira. As nuvens pesadas não queriam brincar entre si, mas lutar avançando umas sobre as outras. Colisão. Conflito.
Aquelas nuvens agressivas estavam muito longe de sua melhor lembrança: Um narguilè.
A fumaça leve, espalhada, ousada e sensual. A fumaça que envolvia o corpo de um homem, o homem, e ao mesmo tempo a seduzia, atraindo seu corpo para perto daquele ser.
Aquela fumaça invadia seus beijos, seu prazer, suas convulsões.
Entre as mãos que passeavam entre curvas, pernas encaixadas... a fumaça atravessava e a febre consumia.
Em um dia estúpidamente alegre o narguilè não se encontrava mais. Sumira com aquele homem. A fumaça dissipara-se. Evaecera tudo. Todas as cores. As cores se misturaram. Confundiam. Colidiam. Lutavam.
Nada era mais leve. Nada era mais envolvente como aquele narguilè.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
terça-feira, 22 de setembro de 2009
domingo, 30 de agosto de 2009
A Sessão
As pessoas adentraram o recinto aos poucos e o alvoroço também. Jude se acomodou em seu
assento e para distrair os nervos resolveu entoar mentalmente uma mantra. Eu achei idiota.
Dentre os seres que ali se encontravam estava o Sargento e suas grossas sobrancelhas franzidas.
Eis que entra a Juíza com seu traje habitual e o ridículo martelinho irritante. Mas ela bate
com classe o seu martelinho até que todos os presentes se calem. Inicia-se a sessão.
É a última e a causa está ganha, é o que diz o advogado de Jude.
Jude estava melhor nos últimos tempos: ia à terapia, voltou a correr de bicicleta no parque,
cuidava de suas plantas(que eram poucas e pequenas, porém amadas), tomava remédios mais leves...
enfim! Estava se curando!
Empatizou bastante com seu psicoterapeuta e entrava em contato com o mundo aos poucos.
Jude e seus olhos cor-de-mel costumavam olhar os pombos andando no centro, seus cabelos
pretos ondulados estavam com ligas de borracha amarelas(aquelas que se amarram os maços de
cédula) nos domindos de calor, seus seios tinham mamilos rosadinhos, seus lábios eram finos e
corados. Não se irritava na TPM, mas chorava até com campanha publicitária sobre a extinção dos
ursos polares! Nunca conseguia abrir maçanetas arredondadas. Ouvia aquele programa de flackbacks
da rádio. Gostava de sardinha. Odiava azeitona. Dizia "eu te amo, mamãe" e "eu te amo, papai".
Cantava, desafinada, pra animar os amigos. E tinha muitos amigos!
Há quanto tempo rola a sessão? Bem, está no fim... a Juíza dará as conclusões finais.
Ao ouvir, o Sargento, com a face vermelha e suada, puxa a pequena arma e dá três tiros em sua
mulher. Antes mesmo de ser agarrado dá um tiro na boca, morrendo súbitamente, é claro.
A morte de Jude foi lenta.
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Éter
Cloroformil, éter.
Folhas tão secas,tão decadentes.
Tão decadentes.
Esvoaçantes.
Éter.

